José Manuel Palma

Professor de Psicologia do Ambiente, Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa



Um dos principais problemas dos espaços suburbanos em expansão acelerada, não será tanto a falta de espaços verdes per si, mas a inexistência de espaços qualificados que possam reconquistar comportamentos relacionados com uma redefinição qualitativa do espaço, contribuindo para a identidade social positiva das populações estar relacionada com o espaço onde vivem. Este é um objectivo essencialmente importante ao nível da juventude cuja essência de identidade do local onde vivem é especialmente perturbador. Neste contexto a proposta do Parque Cultural e Natural do Colaride é particularmente importante.

A área do Cacém em particular, e todo o concelho de Sintra em geral, têm sofrido uma intensa pressão urbanística. Sem qualidade arquitectónica, o espaço urbano tem assistido a uma reformulação das áreas mais antigas e a uma transformação radical da relação de trabalho, primeiro, e de recreio, depois, se faz fora do espaço de habitação. Essa tendência é natural quando estamos a lidar com migrantes, que nasceram fora da área em questão, cujas raízes e identidade passam pelos locais de proveniência, e que consideram muito o local de habitação como um mal necessário. Daí que poderemos considerar que muitos dos problemas de áreas como estas residem no facto de, pela sua natureza, os seus "novos" habitantes possuírem com elas uma relação apenas funcional e muito pouco afectiva. Aliás este facto leva a que zonas como o Cacém tenham associadas características negativas que os seus habitantes não desejam ver associadas a si próprios. Neste contexto é muito difícil que uma maioria da população destes locais vejam neles um elemento positivo da sua identidade social. Este círculo faz com que muitos considerem estes locais como um local de passagem definindo dentro e fora dele áreas de primeira, segunda ou terceira a que se acede mudando de casa. Esta mobilidade faz, por sua vez, aumentar o problema da identificação com o lugar que é muito mais dificilmente conseguida. Este círculo vicioso só se consegue modificar com uma estratégia integrada que requalifique o centro urbano e espaços com o proposto.

Um dos mais graves equívocos do urbanismo actual é o de considerar os espaços verdes como uma relação quase directa entre o urbanismo (densidade espacial e social) e a área a "ajardinar". Mesmo considerando esta relação, espaços como o Cacém têm uma quantidade de espaços verdes ínfima em relação ao previsível pela fórmula. No entanto, esta fórmula é enganadora na medida em que a necessidade de espaços verdes tem a ver com o tipo de densidade percebida ser de molde a influenciar a sua percepção de controle social. Deste modo existem zonas que não têm espaços verdes, mas que tal facto constitui um elemento desprezível na sua qualidade de vida, enquanto outras, muitas vezes com muito menos densidade, para quem um espaço deste género é fundamental para o equilíbrio das pessoas e dos grupos.

Por outro lado é importante considerar que um espaço verde é hoje muito mais complexo que aqui há uns anos atrás. O usufruto de um jardim pode não ser feito se não houver a possibilidade da parte dos utentes, de haver nesse espaço uma relação funcional. Ou seja hoje em dia os espaços verdes são para fazer coisas diferenciadas conforme os grupos para os quais se destinam. O espaço Natural ora proposto tem a possibilidade de atingir diferentes objectivos o que, pensamos, é fundamental para a autarquia se envolver numa estratégia de recuperação do espaço.

O modo como adquirimos a nossa identidade social é muito diferenciada. No entanto, essa identidade é obtida a partir das características positivas dos grupos a que pertencemos que são assimiladas como fazendo parte fundamental da nossa identidade.

No caso vertente estamos a falar de identidade social definida por um grupo espacial. Na área de Lisboa, com o fenómeno suburbano, a pertença a um grupo social, que seja definido pelo espaço que ocupa é cada vez mais rara. Não espanta, portanto, que numa série de estudos sobre a identidade nacional e regional que venho fazendo desde 1986, os habitantes de Lisboa não tendem a dar de si uma imagem muito positiva, sublinhando a identidade nacional como peça mais importante. Pelo contrário, noutras regiões onde esse processo de "suburbanismo" não é tão acentuado, a identidade regional e local é bastante forte.

As consequências de uma identidade social construída ao arrepio do espaço onde se vive são bastante negativas do ponto de vista de coesão social. Por outro lado a tendência para criar raízes espaciais é bastante importante nos jovens de segunda e terceira geração que, no seu natural movimento de apropriação do espaço envolvente, estão disponíveis para sublinhar a positividade do seu entorno. O facto de não haver espaços passíveis de lhes comunicar a história do lugar, que ultrapasse a recente, é muito negativo, expulsando-os para a conquista de identidade "fora do lugar".

O parque em questão é fundamental para inverter esta estratégia porque se assume como multifacetado:

  1. Fornece a história de uma ocupação estendida pelos tempos idos, que disponibiliza uma identidade à zona que vai muito para além da suburbanidade e do crescimento recente.
  2. Possibilita a criação de um espaço onde seja possível encontrar o lugar para levar a cabo coisas positivas que até agora se fazem fora do burgo.
  3. Reforça a identidade social positiva a partir do lugar, contribuindo para a quebra do círculo de afastamento.
  4. Possibilita a ligação a actividades tradicionais (agricultura) que a maior parte dos habitantes, mesmo aqueles que vêm de regiões mais tradicionais, consideram impossível de coexistir neste subúrbio.
  5. Poderá ser articulado com projectos urbanísticos de qualidade (nas suas envolventes) que acentuam a qualificação do espaço.







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