Prof. José Vargas  


José Manuel Vargas




Colaride ao amanhecer

As condições naturais do pequeno planalto de Colaride e das encostas de Rocanes e Barota, os férteis terrenos e abundância de águas, foram favoráveis à fixação de comunidades humanas desde tempos muito remotos.

Todos os períodos da Pré-História estão ali documentados pelos vestígios arqueológicos, e na época Romana terá havido mesmo uma grande exploração agrícola em Colaride.

Arqueólogo explicando as escavações

A presença árabe na zona atesta-se pela toponímia dos lugares vizinhos: Cacém (qasim, o que divide, repartidor); Massamá (maçtamá, lugar elevado onde se toma água), e talvez Barota (de baliuta?, bolota).

A seguir à conquista de Lisboa (1147), todo o terrírório ao redor da cidade ficou sendo propriedade do Rei, que fez numerosas doações a nobres e às ordens militares e religiosas. Se houve doações de D. Afonso Henriques nesta zona, não chegaram até nós os documentos, mas sabe-se que havia um reguengo em Laveiras, e que doou a herdade de Meleças ao mosteiro de Santa Cruz, em 1159.

Os mais antigos documentos conhecidos sobre Colaride e Barota, datam do séc. XIII. Em 1218, D. Afonso II faz doação a três nobres de um conjunto de bens, entre os quais a herdade de Barouta, sendo entregue a cada um deles uma terça parte. Redigidas no latim vulgar daquela época, as três cartas régias são do mesmo teor, variando apenas os nomes dos donatários: D. Geraldo e sua mulher Maria Gonçalves, D. Rolim e sua mulher Dona Elvira, João Pires, cevadeiro-mor e sua mulher Orvelida (TT., a Vic.Fora, maço Z n.0s 6 e 7, Forais Antigos, maço 12, CL 41).

A estes documentos, segue-se um outro de 1220 (Ruy de Azevedo) e que é uma lista das propriedades das ordens militares e religiosas em Lisboa e seu termo (T.T., Gav. 1-2-18), onde é referida a posse pelo mosteiro de S. Vicente de Fora de uma herdade com dois casais em Agualva (aqua alba).



Escavações

Depois, em 1260, uma tal Dona Maria Mendes vendeu a D. Arnaldo Raimundo e mulher Maria Martins, uma herdade que tinha em Colaride e Agualva, parte no termo de Sintra, parte no termo de Lisboa, separação feita justamente pela ribeira da Agualva. Este documento (T.T, Chelas, m.6 n.0 117) é mais rico de informação que os anteriores, porque nos dá as confrontações das herdades. A do termo de Sintra, confrontava: «a Oriente, ribeira de Agualva, a Ocidente herdade do Bispo, que chamam Cabanas, pelo arrife, a Norte Pedro Martins, cavaleiro, e Martinho Eanes, filho de João Mouráes, e rossios». A de Colaride, que ficava no termo de Lisboa, estava limitada: «a Oriente e Sul, herdade dos homens de Torgena, a Ocidente rio de Agualva, a Norte herdade de Domingos Galego».

Poucos anos volvidos, em 1272, vamos encontrar a herdade de Colaride na posse de Simão Gonçalves, vigário de S. Pedro de Sintra, o qual fez dela doação ao mosteiro de Chelas, como dote da sua irmã Elvira Simões (T.T Chelas, m. iZ n.0 224).

Entrada para a gruta

Nos séculos XIV e XV, diversos documentos mostram que a herdade de Colaride era já designada por casal e continuava na posse do mosteiro de Chelas. Especialmente detalhada é a carta de emprazamento que a abadessa e donas de Chelas fizeram a Fernando Eanes e a sua mulher Margarida Eanes em 12 de Outubro de 1463 (TiL Chelas, m.39, n.0 772). Descrevem-se, em pormenor, os bens que constituíam o casal de Colaride, situado na freguesia de belas, termo de Lisboa: uma casa de morada, com seu celeiro, e uma casa em que está o palheiro, todas três em um renque de um telhado de longo; e currais e seis courelas. É referido um moinho de vento, a «boca do algar» (entrada da gruta), o caminho da fonte, o penedo, as lajes, etc., além de mencionar diversas propriedades vizinhas, quase todas bens do clero (Sé, Igreja e Santa Justa, Convento de Santa Clara, Convento de São Francisco).

Quanto ao casal da Barota, continuamos a encontrar referências nos séculos XV e XVI, mas que só mencionam o nome dos moradores. Em 1492, um Afonso Pires, morador na Idanha, furtou um cordeiro a um Pero de Baruta, morador no Cacém, motivo porque foi preso na cadeia de belas, donde fugiu, e, por isso, o alcaide e carcereiro teve que pedir perdão a D. João II (TiL, Chanc.D.JoãoII, Liv. 5, fL32). No século XVIII, já o casal da Barota pagava foro aos condes de Pombeiro, senhores de Belas.

Casal Medieval

De Rocanes, que sugere um proprietário medievo Roque Anes, só sabemos da sua existência, na segunda metade do século XVI, pelos registos paroquiais de belas. Viviam ali duas ou três famílias, que exploravam as courelas e terras de pão vizinhas, das quais pagavam foro ao convento de Chelas, Sé de Lisboa, e à Irmandade do Espírito Santo da Pedreira (Lisboa). Este último foro consistia em 60 alqueires de trigo, 37 e 1/2 de cevada e 1 carneiro. Em finais do século passado, o casal de Rocanes estava desabitado. Voltaria a ser ocupado mais tarde e de novo abandonado por volta de 1970, sendo hoje uma desoladora ruína.

Voltando a Colaride, terá deixado de pertencer ao convento de Chelas no séc. XVII, altura em que aparece nos documentos como foreiro ao Marquês de Castelo Rodrigo, sendo por isso designado casal do Príncipe Pio. De Colaride até ao actual bairro da Estação ficava a Tapada do Marchante, assim chamada por ser propriedade de um Joaquim Marchante, cujo apelido coincidia com a sua actividade de negociante de gado, criado na zona. Os moradores mais antigos ainda recordam o moinho da Tapada, desaparecido para dar lugar ao reservatório de água de Colaride. Outros mais novos lembrarão as searas de trigo desde Colaride a Barota. E os vindouros recordarão com orgulho a geração actual, se souber preservar o que resta deste espaço natural, repleto de memória.

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