Rui Oliveira *

Ao abordarmos a temática, complexa porque sincrética, da cultura e território dos saloios, acorrem-nos de imediato os banalizados estereótipos dos saloios, camponeses ou aldeões dos arredores de Lisboa. Grosseiros, rústicos e manhosos, habitantes dos agri Olisiponenses, que moirejando de sol a sol, nas suas courelas e hortas, garantiam os mimos leguminosos com que os lisboetas, também eles figuras estereotipadas (alfacinhas), se deliciavam nas tardes cálidas de Verão. Imagens bucólicas que fizeram escola no séc. XIX e princípios de XX, bem na esteira do Romantismo, cuja musa inspiradora foi a lendária e mística Serra de Sintra. Não sendo descabidos de todo, estes conceitos apenas registaram o «contacto visual», na maioria dos casos, e mais raramente, foram fruto de «diálogo e pesquisa» com gente saloia, em terras saloias. Daí que, e apesar das proximidades da grande Lisboa, centro de poder, capital da nação secular e colonizadora, a definição da tradicional região saloia continue a suscitar desacordo entre investigadores, foldoristas e apaixonados pela tradição.

Face às transformações sociais em curso, que sustentarão novas formas de pensar e agir dos Portugueses no próximo século, urge uma reapreciação de toda a problemática centrada nas terras e gentes saloias. Tarefa a desenvolver derradeiramente com a actual geração anciã, pois são os últimos representantes de um tempo e estilo de vida que se pautava e dividia entre os ciclos produtivos agrícolas, festas religiosas e profanas, cujos oragos se perdem, na maioria dos casos, na noite dos tempos. Assim, e perante a rarificação dos informantes, toda a investigação etnográfica, ou simplesmente folclórica, tem que passar a ser feita numa base científica interdisciplinar. Ciências como a História, a Toponimia, a Filologia, articuladas como estudo da Arquitectura Popular, e outras disciplinas artísticas, sociais e humanas, alicerçadas numa exaustiva pesquisa bibliográfica, vão ser no futura não só fundamentais como o único meio para a compreensão da cultura saloia.

Nos casos de Colaride e Rocanes, vamos encontrar traços da identidade saloia em constru ções típicas da arquitectura tradicional da região, quer moinhos, quer casais agrícolas.

O velho moinho de Rocanes, actualmente muito adulterado por transformações feitas nos anos 60, para adaptação a moradia, depois abandonada, é um moinho característico da zona saloia, que poderá remontar ao século XVIIl, ou mesmo XVII. Próximo, havia outro engenho de moer, do mesmo tipo, que foi destruído, cerca de 1970, na sequência da exploração de uma pedreira. A noroeste, ficava o moinho da Tapada, de espessas paredes, também demolido. Eram elementos identificativos da paisagem saloia, cujo significado cultural e afectivo permanece de algum modo nos nossos dias, pelo que seriam certamente muitos os que aprovariam a recuperação do moinho de Rocanes, para fins educativos, e pelo simbolismo de passado rural.

Da arquitectura popular são as rumas do casal saloio de Rocanes um bom exemplo. Ocupando parcialmente um afloramento natural de calcário, o seu conjunto inclui: área de habitação de piso térreo, com telhado de duas águas, arribana (casa de vaca), palheiro, telheiro e pátio. Parte das construções e de alguns muros em ruínas, têm características construtivas bastante antigas, possivelmente medievais, como o topónimo (derivado de Roque Anes) deixa supôr.

Por sua vez, em Colaride, onde existe também um casal saloio, se bem que descaracterizado por construções mais recentes, encontramos vestígios do período romano e tardo-romano e referências documentais desde o séc. XIII, que comprovam a antiguidade da ocupação humana do lugar e parecem confirmar a persistência de uma população hispano-romana, moçárabe e mourisca, que veio a constituir os çahroi (=saloios, habitantes do campo). O próprio topónimo Colaride deixa indicar essa presença, pois o sufixo ide é vulgar nos moçarabismos toponímios, por ex. Alfragide, Carnaxide (cf. Joseph-Maria Piel, Estudos de Linguística Histórica...1989, p.39).

Colaride e Rocanes são exemplos particulares do sincretismo da cultura saloia, da assimilação heterogénea equilibrada, e particularmente activa, do intercâmbio de culturas que as gentes saloias protagonizaram durante séculos nesta região.

* Investigador de Etnografia e Folclore





Futuro Parque     Fauna     Flora     Arqueologia e História     Gruta     Contactos     Localização
Projecto Parque de Colaride - Associação Olho Vivo